São Paulo, quarta-feira, 08 de fevereiro de 2012. "Saber e não fazer, ainda é não saber" - Confúcio
  Tio Alê
 

WebQuest - uma ótima metodologia!

Em 1995, o Professor Bernard Dodge, da San Diego State University, propôs a criação de um conceito – WebQuest – que auxiliasse na clarificação de um determinado tipo de atividades que estavam sendo postas em prática no âmbito de um projeto educacional de uso da internet. Assim definia WebQuest (literalmente, uma demanda na Internet): "Uma WebQuest é uma atividade orientada para a pesquisa em que alguma, ou toda, a informação com que os alunos interagem provém de recursos na Internet."

Dodge propôs a definição de dois níveis, que se prendem com a duração dos projetos – curta (uma a três aulas) e longa (uma semana a um mês em ambiente de sala de aula). As WebQuests de curta duração são mais propícias para tarefas de obtenção de informação, enquanto que as de longa duração têm como objetivo a extensão e refinamento do conhecimento.

Em linhas gerais, uma WebQuest parte da definição de um tema e objetivos por parte do professor, uma pesquisa inicial e disponibilização de links selecionados acerca do assunto, para consulta orientada dos alunos. Estes devem ter uma tarefa, exequível e interessante, que norteie a pesquisa. Para o trabalho em grupos, os alunos devem assumir papéis diferentes, como o de especialistas, visando gerar trocas entre eles. Tanto o material inicial como os resultados devem ser publicados na web, online.

Esse tipo de atividade permite a vivência de situações reais, abrindo um espaço onde se utiliza e valoriza as múltiplas inteligências (os alunos aprendem a reconhecer as principais competências de cada colega, valorizando-as dentro do trabalho).

Numa WebQuest é muito mais fácil aplicar modelos de avaliação multidisciplinares. Muito além do conteúdo, os aspectos interpessoais, intrapessoais, nível de maturidade, habilidades linguística, estética, política, etc. podem ser analisados e avaliados, contribuindo para o auto-conhecimento do aluno e seu amadurecimento.

 

Virtudes das WebQuests

  • Modo atual de fazer educação: a Internet já é realidade entre os brasileiros, muito mais entre os alunos de escolas particulares. Usar a Internet para ensinar não é nenhuma novidade, é apenas uma forma de aproveitar de forma dirigida o recurso que existe e está disponível;
  • Garante acesso a informações autênticas e atualizadas: a pré-seleção dos sites pelo professor garante que os alunos, trabalhando com foco nos links oferecidos, consigam toda a informação adequada para a elaboração da tarefa;
  • Promove aprendizagem cooperativa: o trabalho em grupo permite o aprendizado compartilhado e discutido, muito mais consistente que o individual;
  • Promove motivação: os desafios oferecem o estímulo para que o aluno se interesse e dê sentido à informação;
  • Desenvolve habilidades cognitivas: as tarefas e o processo sugerido pelo professor geram oportunidades concretas para o desenvolvimento de habilidades do conhecer que favorecem o aprender a aprender;
  • Estimula o aluno a transformar ativamente informações em vez de apenas reproduzí-las: numa WebQuest o importante é acessar, entender e transformar as informações existentes, tendo em vista uma necessidade, problema ou meta significativa;
  • Incentiva a criatividade: as tarefas multidisciplinares permitem que os alunos criem a partir das investigações que realizam;
  • Favorece o processo de autoria dos professores: oferece oportunidades concretas para que os professores se vejam e atuem como autores de sua obra, permeando-a com os conteúdos e a tônica que julga importantes, independente de livros ou apostilas;
  • Favorece o compartilhar de saberes pedagógicos: o uso de uma estrutura padronizada facilita o intercâmbio entre professores.

 

Jogo ou trabalho?

O jogo é uma atividade que ocorre dentro de certos limites temporais e espaciais, segundo uma ordem e regras aceitas livremente, separada da necessidade e utilidade do material e com arrebatamento e entusiasmo (por Hiuzinga).

Os jogos podem ser classificados como (por Caillois):

  • Agon: jogos de competição
  • Alea: jogos de sorte
  • Mimicry: jogos de simulação (ou jogos de papéis)
  • Llinx: jogos de vertigem

A WebQuest, então, poderia ser classificada como um jogo do tipo "Mimicry".

Mas como esse tipo de atividade visa um objetivo e gera materiais ou produtos finais, deixa de ser caracterizada como jogo e pode ser caracterizada como trabalho.

Portanto a WebQuest é um misto de jogo, pois situa-se na esfera da fantasia e de trabalho, pois também situa-se na esfera das necessidades reais do mundo prático.

Não devemos pensar que a simulação do trabalho na escola é igual ao verdadeiro trabalho na luta pela sobreviência pois, mesmo ultrapassando o jogo, o trabalho escolar continuará escolar, a meio caminho entre o jogo e o trabalho.

A WebQuest não é um recurso para tornar suas aulas mais agradáveis ('uma perversão do jogo e uma aberração do trabalho', segundo Chateau). É, antes de tudo, uma ponte para o conhecimento, para promover desenvolvimento cognitivo e pessoal.

 

A WebQuest na prática

Todas as vezes que proponho uma WebQuest aos meus alunos, a experiência é muito positiva. Os alunos se interessaram pela tarefa proposta e 'entrarm no espírito' do processo sugerido.

Já na primeira WebQuest fiquei positivamente surpreso ao perceber a concentração e atenção de todos os alunos no desenvolvimento da atividade. Tanto que tocou o sinal avisando o término da aula e nenhum dos alunos sequer se moveu!

Minha atitude é de orientador. As solicitações de intervenção como especialista ou como coordenador são constantes, mas recusadas para que a equipe lide com os problemas e as dificuldades. Em nenhum momento proíbo algum procedimento (pesquisa em mecanismos de busca ou uso de ICQ), que alguns alunos optarm por utilizar. Apenas indico que o conteúdo selecionado no site é suficiente e que seria melhor trabalhar com foco naquele conteúdo.

Observando os alunos que utilizaram o ICQ percebi que a intenção era, como idéia original, agilizar a comunicação dentro da equipe, que estava espalhada pela sala (como num jogo de Counter Strike). Os próprios alunos perceberam que, nesse tipo de situação, era muito mais eficiente reunir a equipe e utilizar a conversa direta.

Enquanto todos estavam explorando a atividade (conhecendo o objetivo, as regras, o processo) não houve dispersão (acesso a sites excusos à atividade). É fundamental planejar bem o tempo para que não ocorra dispersão. O ideal é sempre dispor de espaço para realizar as atividades propostas (anotações, recortes e colagens, etc.) no espaço da sala de informática, o que nem sempre é possível.

As observações que fiz e a avaliação que os coordenadores da equipe fizeram, nos permitiram discutir, além do conteúdo específico da WebQuest, atitudes, relacionamentos de chefia-subordinação, qualidade de gestão, importância da organização, gestão de competências e trabaho em equipe.

 

Se você tem alguma experiência com WebQuests ou gostaria de conversar mais comigo a esse respeito, entre em contato pelo e-mail tioale@tioale.pro.br.

 

Para saber mais:


Tio Alê
20/03/2003

 


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